sábado, 13 de novembro de 2010

O teu enigma

Vivia de sorrisos discretos
apenas ele os conseguia
definir e sentir
na noite fez o seu dia
refugiado na sombra
de sonhos imaginados
e por ele pensados

Nesse corpo
tocava uma melodia
por poucos ouvida
por poucos sentida
a melodia da liberdade

Por entre silêncios
construiu o seu mundo
entre silêncios
amava sem o dizer
perdera a vontade
de o exprimir

Nas linhas do tempo
escreveu a sua história
na sede do mais querer
atreveu-se a abraçar
a dor da mudança
as raízes dos seus pés
gritavam de uma saudade
ainda ausente

O mundo abriu-se finalmente
aos seus olhos
será que o viu?
do outro lado da mudança
talvez estivesse tudo
a sua espera
ou simplesmente o medo
de se perder na eternidade
de um nada
sem gosto
nem rosto

Nestas linhas
pintei o teu rosto
no meu corpo
ficou o teu gosto

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Poeira de sonho

De sentidos estagnados
corpo dorido
mergulhou nas palavras
purificando a alma
num banho
de poeira cristalina

Sentiu
sem saber sentir
a força de um amor
que lhe pintou
os sonhos
abriu-se lentamente
abraçando a vida
sem a certeza
da solidão ser quebrada

O tempo passou
os sonhos ficaram
mudaram as personagens
que foi pintando
timidamente
na tela do destino
num presente
ausente

Hoje pintou-se
num quadro
de poeira de sonho
a tela secou
num vazio de cores
corridas a vento

Palavras perdidas
numa tela em branco
de poeira de sonho
esquecida

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O secar dos sentidos

Sentia-se a secar
como se as palavras
não fossem suas
a inspiração perdia-se
algures entre

a sede de viver
e a sede de ser
sem medir o tempo
apenas viveu
cada momento
de um novo despertar
de amor

Talvez acorde um dia
mas por agora
fica envolvida
num adormecer
de palavras
em silêncios
propositadamente
contidos
no secar
dos sentidos

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

(in)certa

Num suspiro de alma
foi desfolhado um coração
como as páginas
de um livro em branco
uma imagem
se gravou em silêncio
em cada uma delas

Numa incerteza
abriu as asas frágeis
marcadas de rasgos
intemporais desiguais

Com medo caminhava
lentamente
ouvia os suspiros
de tempos passados
trazidos pela brisa nocturna

Sentiu o frio polar
no rasgar
das folhas de um outono
esquecido

Aconchegou-se
e esqueceu-se
na certeza de uma vida
(in)certa

domingo, 17 de outubro de 2010

O sentir das Palavras

Do sentir
fez o seu ser
de palavras amadas
desarmadas
escreveu
como se o amanhã
não existisse
num presente
corrente
em linhas abstractas
transcreveu prosas
fechou portas
abriu janelas
construiu caminhos
intemporais
banais para os demais
num sentir de palavras
nas quais mergulhou
sem se cansar

Ainda hoje
vive do sentir
num amar de linhas
e entrelinhas
num ser poeta
sem o saber ser

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Rasga-se

Num desgaste incerto
rasgaram-se nuvens
leves
frágeis
mas resistentes
resistiam
persistiam
a ventos glaciares
ao sol abrasador
a tempestades sentidas
a rajadas cuspidas

pelo céu em fúria

Amarga procura
de um rasgar
destemido
de corpos enlaçados
enraízados

Da natureza vem a força
do renascer
de um amor seco
onde as palavras
se libertam em ecos
em enigmas
rasgados
despidos e sentidos