quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Suspiro de luz

Entre cada suspiro
recordou o tempo
em que foi luz
aos seus olhos
os mesmos olhos
que a queimaram
numa espiral de desprezo
e desespero
sem fim a vista

Perdeu o sentir
de uma amor
que lhe arde no corpo
na alma
no mais íntimo
de uma existência
em que tudo esperou
e nada encontrou

Amargo sabor
de continuar a querer
o que nunca teve

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lágrimas de vida

Numa noite
escorregou em gotas
pensava ser da chuva
mas na realidade
não passavam
das suas próprias lágrimas
lágrimas da sombra
de um coração ferido
quase sem vida

Alma de sombra
vida empobrecida
por um tempo
que teima ser
apenas tempo de espera
no qual o gosto
deixou de existir

Deformada
aos seus próprios olhos
apagou o último sorriso
de um sonho perdido

Lágrimas de vida
numa boca seca
de amor

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Manhã submersa

Colhem-se suspiros
em gotas de vapor
numa janela de desabafos
de destino remoído

Em cada suspiro
uma verdade efémera
em cada recordar
uma ferida aberta
em cada tentativa
de esquecer
um momento perdido

Manhã submersa
num jogo de dúvidas
insistentes, persistentes
num misto de querer
e não possuir
o que uma boca anseia
o que um corpo deseja

Um doce sentir
num amargo recordar
um ser de corpo e alma
preso na teia do mundo
consumido lentamente
pelo desamor


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quarto escuro

Abriu a porta lentamente
com o movimento
sentiu um leve cheiro a silêncio
seria assim os próximos dias
silêncios
de escuridão desterrada

Decidira caminhar
de luzes apagadas
sentir o toque frio
das paredes destemperadas
de um quarto secreto
repleto de cheiro a desespero

Entre quatro paredes
fez um ângulo recto
do corpo com a cama
das almofadas um apoio rígido
de uma cabeça
com o peso do mundo

As ideias desfilaram
a uma velocidade
pouco perceptível
compassadas pelo som da ventilação

No centro desse espaço
sentou-se no chão
adormeceu
em enigmas misturados
com alcatifa seca e pouco piedosa

Pontos e enigmas
por desvendar
num quarto escuro
de um olhar
a preto e branco

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Podre e amargo sabor

De cordas do destino rompidas
fez a sua própria melodia
gemidos entalados
entranhados numa garganta
engasgada, rasgada
de tanto veneno engolido

Gelada por dentro
enrugada por fora
sacrificada por um tempo
em que o amor
lhe sabe a fruto podre
realidade crua
sangrada a frio
dor de víbora despertada
de presa abatida

Dançou ao som
de uma música maldita
nas veias corria veneno
de cobra cega
numa mistura de mulher de fogo
e alma ferida

Podre e amargo sabor
de desamor

sábado, 13 de novembro de 2010

O teu enigma

Vivia de sorrisos discretos
apenas ele os conseguia
definir e sentir
na noite fez o seu dia
refugiado na sombra
de sonhos imaginados
e por ele pensados

Nesse corpo
tocava uma melodia
por poucos ouvida
por poucos sentida
a melodia da liberdade

Por entre silêncios
construiu o seu mundo
entre silêncios
amava sem o dizer
perdera a vontade
de o exprimir

Nas linhas do tempo
escreveu a sua história
na sede do mais querer
atreveu-se a abraçar
a dor da mudança
as raízes dos seus pés
gritavam de uma saudade
ainda ausente

O mundo abriu-se finalmente
aos seus olhos
será que o viu?
do outro lado da mudança
talvez estivesse tudo
a sua espera
ou simplesmente o medo
de se perder na eternidade
de um nada
sem gosto
nem rosto

Nestas linhas
pintei o teu rosto
no meu corpo
ficou o teu gosto

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Poeira de sonho

De sentidos estagnados
corpo dorido
mergulhou nas palavras
purificando a alma
num banho
de poeira cristalina

Sentiu
sem saber sentir
a força de um amor
que lhe pintou
os sonhos
abriu-se lentamente
abraçando a vida
sem a certeza
da solidão ser quebrada

O tempo passou
os sonhos ficaram
mudaram as personagens
que foi pintando
timidamente
na tela do destino
num presente
ausente

Hoje pintou-se
num quadro
de poeira de sonho
a tela secou
num vazio de cores
corridas a vento

Palavras perdidas
numa tela em branco
de poeira de sonho
esquecida